Materiais que não fazem sonhos

Esse fiapo a que chamam "vida" é que está ali, em "Materiaes", o livro mais recente de Sérgio Fantini. Há reverberações de Charles Bukowski, sim, mas a carne da linguagem é outra: curtida nos sobrados de Sabará, onde as tias do autor recebiam, hospitaleiras, os amigos bêbados do sobrinho; no viaduto Santa Teresa, curvado como um velho sobre a Serraria Souza Pìnto; nos bares de pinga e torresmo do baixo Bahia. É assim: seca.
Fantini já chegou a citar Dalton Trevisan para destacar sua contenção verbal. Deixemos de lado a referência à contenção verbal, que é sempre bem-vinda, mas tornou-se tão obrigatória que talvez mereça uma impostura. Mais importante é notar que sua família literária tem raízes em quintal mais próximo que a do "Vampiro de Curitiba". As bases de sua árvore genealógica estão em Wander Pirolli, o velho Wander de "A Mãe e o Filho da Mãe", longe da mídia há anos.
Mas vamos aos "Materiaes". O livro reúne a reedição da novela "Diz Xis", primeiro trabalho em prosa de Fantini, "Suíte Bar" e "Rugas". "Diz Xis" - cujo título remete à expressão inglesa "say cheese" (para sugerir sorriso à câmara fotográfica) - tem um viés autobiográfico, mas sem esquecer, espertamente, que toda vida é vida de um outro. "Um dia, enquanto minha mãe escolhia uma roupa para eu ir missa, me veio uma luz: aqueles caras fumam maconha! Naquele instante, cansado do excesso de cuidados de mamãe, decidi virar maconheiro. Um dia tomei coragem e pedi ao mais novo deles, colega de escola, que me aplicasse. Ele me fez comprar um litro de vinho e à noite fomos beber escondidos no quintal do Silvio!", conta o narrador à altura da página 13. "Suíte Bar" é isso mesmo: bar, bar, bar, pernoites com a cara no asfalto, sexo a fazer pensar na morte. Em "Rugas", os flashes cronometrados dessa coisa chamada amor, decorada, aqui e ali, pelas rugas nos seios, gases gástricos, o "barulho viril do xixi". Nenhum grande vôo além do álcool, da secreção vaginal, do vômito. Afinal, não somos feitos do mesmo material de que são feitos os sonhos.
Pena que "Materiaes" não tenha reunido também o "Cada Um, Cada Um", segundo livro de prosa de Fantini - porradas minúsculas. É claro que o caso editorial de "Cada Um..." não é o mesmo de "Diz Xis. Este último foi mal editado da primeira vez e veio de novo à baila para merecer um tratamento mais à sua altura, pelas mãos de Tião Nunes, das Edições Dubolso.
De qualquer forma, "Materiaes" tem uma espessura que não encontrávamos no Fantini poeta, pelo menos até garimpar seu lado menos informal em "79/97", uma antologia editada há três anos, como uma espécie de queima de arquivo para tomar a estrada da prosa porosa.
Wir Caetano