Sagrada e profana fragmentação do humano

Maria do Carmo Arantes

Nas "Profanas Escrituras" de Miguel Gontijo (Santo do Antônio do Monte, 1949) temos a abertura de uma zona neutra no interior do dualismo entre o sagrado e o profano, sobretudo a garantia de que um fato suporta tanto uma versão sagrada quanto uma profana. Este espaço intermediário não deve ser pensado como exato meio entre dois opostos, mas como o que mais consente o desenvolvimento tanto do sagrado como do profano. Constrói um mundo próprio utilizando símbolos e alegorias dentro da retomada/apropriação da História da Arte. O que vemos em Miguel é uma releitura da arte e do homem. A oposição radical entre o sagrado e o profano parece ter dado lugar a uma conexão contemporânea de sociedade como um tecido, onde se entrelaçam elementos divinos e humanos, sem que os limites estejam nitidamente marcados. Dentro dessas noções de sagrado/profano é necessário realizar diferenciações posteriores, partindo-se do principio de que o que é sagrado pode sê-lo somente em certos contextos, em certas ocasiões, não em todas. Quando desvinculado de sua verdadeira origem e da sociedade inaugural, "o sagrado e o profano pertencem ao mesmo nível de compreensão e constituem dimensões tão interligadas que resultam indissociáveis", conforme Evans-Prittchard. Com o humor corrosivo perpassando pelo lado sombrio da personalidade humana, Miguel escreve suas "Profanas Escrituras" em tons sombrosos, de uma forma incisiva, talvez considerando o sagrado como uma penumbra onde floresce a magia imune da dimensão do santo como senso ético. Entendemos que a preocupação essencial é levar ao fim, prescrutrar ao máximo a indagação sobre o destino do homem.

 

 

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