Frestas para a inversão do real

É possível que a imaginação, entendida como uma ordem simbólica ou uma linguagem de ícones, possa ser dirigida?
Sérgio Machado (Belo Horizonte, 1957) observa de forma objetiva o desenvolvimento de um fragmento de fantasia, prolonga-o na matéria e apresenta o resultado estetizado. A forma inicial é desenvolvida nos meandros do inconsciente, mas a posterior estetização é produto do consciente, sendo esse o canal de controle dos meios criativos nos quais exercita sua expressão plástica. Objetos apreensíveis que respondem a uma necessidade de se exprimir, não sendo, contudo, um processo automático como transcrever um sonho. O artista inicia as caixas/objetos escultóricos a partir de um pano de fundo imponderável e daí começa a delinear as formas até chegar a um código de linguagem não-verbal, que possui diversas possibilidades de interpretação tendendo a ser mais forte quando não tentamos reduzi-la a apenas uma. Sobre uma lâmina de metal geralmente retangular, encaixilha os nichos quadrados – é onde instala o espaço do mito, um repertório de símbolos referenciais profundamente ligados ao despertar de uma nova ordem de seres mutantes, em que o animal e o humano transmutam-se em espécies primordiais. Nessa "materia primordialis", Sérgio cria um realismo inverso ou um fantástico controlado. Trabalha com poucos elementos esculpidos (remetendo-nos a determinados trabalhos feitos com cera por Bruce Naumam) em madeira ou metal não se tratando, portanto, de "objet trouvé". Na estruturação das caixas/objetos, as formas geométricas, que formam o cenário, denotam a necessidade de ordenar e domar a essência. No centro dessa organização revela-se o espaço/oratório em que ele nos propõe a evocação dos ícones que intuem o sagrado em seu íntimo: a revelação do eu profundo, esse pensar sem palavras alcança um forte apelo provocativo visual. O contraste entre o toque suave da madeira e do frio aço escovado, a organização estrutural e a liberdade imagética falam da dualidade do ser humano eternamente dividido entre harmonia e caos, entre erótico e espiritual, claro e escuro, céu e terra. São pequenas frestas pelas quais penetramos no rico mundo criativo de Sérgio Machado, que nos levam a experiências únicas de uma "super-realidade" entendida como "a síntese da experiência que leva em conta a evidência de toda manifestação de vida espiritual" (Mário Pedrosa).
"A arte de um artista deve ser sua própria arte" (Emil Mölde), assim Sérgio, expressando a si mesmo, marca autêntica e resolutamente a semelhança real com a origem dos mitos evocando a eternidade dos mesmos com a linguagem própria de seu tempo.
Sérgio Machado, a cada exposição, reafirma-se como um dos valores contemporâneos, se renovando sempre, criando obras de pleno sentido de arte e não apenas prelúdios inacabados.
Maria do Carmo Arantes